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sábado, 31 de maio de 2014

Olhos cansados

Olá leitores!

E é sempre bom pensar que são muitos.
Já faz um tempo que não escrevo nada e isso me dói muito. Não tenho tido tempo, inspiração e meu computador já teve dias melhores. Gosto muito do meu blog, o criei sem nenhuma inspiração a torná-lo maior, mas se o universo e o tempo forem a meu favor adorarei ver isso aqui crescer!.

Tempos atrás eu postava todo tipo de conteúdo: contos, resenhas, raramente algumas notícias e etc. Parei de fazer isso porque isso demorava muito e era uma boa desculpa para mim não escrever e além de tudo preferia postar os meus próprios contos. Mas não tenho tampo mais então voltarei a premissa original do blog “Propagar a ideia literária pelo mundo”, na verdade a premissa é simplesmente falar de uma coisa que gosto muito!


Então após seculos de escassez e escuridão voltam às páginas desse blog histórias extraordinárias!



terça-feira, 15 de abril de 2014

poeira de estrelas



Mais um conto do Daniel Rossi.
Narração de Harold "Android" Stricker
Edição, provavelmente, Paranerdia.com.br

humanidade


Uma das premicias do mundo cyberpunk é alta tecnologia. O mundo cyberpunk sempre é representado como uma distopia ultra capitalista onde as grandes corporações tem o controle da lei e da ordem.
Mas por que esse universo nos mostra um futuro quase sem esperança alguma?

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O corvo -Edgar Allan Poe




Este é o audio-conto narrado por Henrique Marques. Conheça o canal do Henrique Aqui.


"Edgar Allan Poe foi um autor, poeta, editor e crítico literário americano, fez parte

sábado, 28 de setembro de 2013

O ancião Eras passadas e tempos perdidos


Logo chegara minha vez. Precinto isso, o céu já não é mais azul e a relva verde já não cresce às margens da estrada. Não sinto medo da morte, mesmo que para mim ela não valha nada. Sinto apenas tristeza, tristeza de partir vendo minha amada Terra doente como esta e eu não poder fazer nada.

sábado, 31 de agosto de 2013

O artista


 

  Infelizmente ainda não é uma produção do próprio ideia literária, mas é com grande prazer que divulgo essa bela produção e iniciativa de Daniel Rossi. Esse é mais um dos contos que saiu da auspiciosa cabeça do autor que já tem vários outros contos postados aqui no blog e do livro as cronicas nerds. aprecie essa nova de divulgação das obras do autor.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Kimera




  O vento soprava abafado, aquela estava sendo uma noite conturbada, era horário de pico e as principais avenidas estavam abarrotadas de carro que cuspiam densas baforadas de poluição, no estreito beco uma criatura disforme, com músculos pontudos que se projetavam de suas costas como, a cada dentada que dava espirrava sangue no chão, uma mulher, próxima dos trinta anos, cabelos loiros, a lateral de seu tronco estava completamente roída, suas costelas que se projetavam para fora da carne ainda exibia pedaços de músculos. A criatura arrancava grandes nacos, seus longos dentes cravaram na barriga da mulher e arrancou todos os músculos da barriga, assim que puxou a carne o intestino grosso saiu junto, esguichando o sangue que escorria pelos dentes e queixo da criatura.

sábado, 25 de maio de 2013

Sitala- parte 5



Eu nunca mais atirei com uma calibre 12. No meu primeiro encontro com os Dragões, me senti um zero à esquerda. Sempre achei a escopeta uma arma pesada, mas enquanto atirava nas Akira Bikes, me lembrei de quando ainda era criança, dos tempos em que meu pai me levava para passear em um parque de diversões decadente em Coney Island. Eu sempre acertava os patinhos com a espingarda de rolha, mas eles nunca caiam.

Javier me deu uma FN MAG. Uma metralhadora belga de respeito que cuspia mais de 800 balas por minuto. Era uma verdadeira máquina de fazer defuntos. Depois desse dia, já nem me lembrava mais da minha Bettinsole e logo comecei a ter dores nas costas de carregar a FN comigo para todo lado, mas a sensação de poder era incrível.

Bem, eu estava em guerra. Uma guerra que nem era minha e era tudo o que eu não queria para a minha vida. O problema é que quando dei por mim, estava envolvido até o pescoço. E o pior de tudo, gostando.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

AS CRÔNICAS DE ONA-Parte 5: Fim.




Dor.

Ainda estava escuro. Parecia que sempre esteve escuro. As trevas abraçavam Ona com tal intensidade que pareciam uma manta, oprimindo-o de todas as sensações. Exceto a dor. A sentia em cada parte do corpo. Corpo. Que corpo? O que era isso? Parecia fazer tanto tempo desde que teve um.

E então veio o calor. Há mil anos atrás era dia, não era? Ou era noite? O que havia acontecido? Só lembrava de... não, não conseguia se lembrar. Apenas a dor, o calor e a escuridão. Estavam com ele desde sempre, não estavam?

Eis que a pressão chegou. Havia algo em cima dele. Vários algos. Ele se lembrou que tinha um corpo. Tentou se mover, se lembrava vagamente de como era isso. Só que não conseguia. Não podia.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

as cronicas de ona Parte 4: Procura


Loretta colocou as mãos sobre os olhos, protegendo-os do sol inclemente do deserto. Sua visão esquadrinhou atentamente o cenário, mas a única coisa que se destacava naquela imensidão laranja era a figura solitária de Tony, que saíra à frente para cobrir mais espaço. Loretta havia ficado na carroça, com Marcus e Lisa.



sábado, 23 de março de 2013

sitala part #4



Cork era uma cidade legal. Eu moraria lá o resto da minha vida, mas seus habitantes não eram muito amistosos com estrangeiros. Javier tinha reputação na cidade, mas era uma exceção, porque ele era quase um ídolo.

Depois que “visitamos” o último endereço, perguntei o porquê daquela loucura. Trocar tiros por chuteiras? Isso é insano! Ele riu da minha cara. Explicou-me que fazia aquilo por causa do futebol e pelos amigos. Disse ainda que a única coisa que o mantinha vivo era a certeza de que, no final de cada mês, sempre haveria o futebol em Cork.

sábado, 16 de março de 2013

As crônicas de ona parte3- Libertação





-T-Tenho mesmo que fazer isso? - Perguntou Ona, enquanto descia da carruagem, tremendo tanto que quase caiu no chão.

Estavam no alto de uma elevação no meio de Gohr, onde o alaranjado do cenário dava lugar a um vermelho mais forte. O pôr do sol no horizonte ajudava a pintar ainda mais o cenário, enquanto as sombras negras se esticavam.

Abaixo deles, havia um acampamento orc. Só que esse não era como o que haviam encontrado Ankho. Haviam paliçadas de madeira demarcando o território, e guardas patrulhando por dentro. Construções negras, como as que haviam servido de prisão para o bárbaro, se espalhavam pelo terreno, acompanhadas de habitações orcs, poços de água, sítios de trabalho forçado e celeiros.

Estavam olhando para um centro de prisioneiros. Por todo o local, a noite se acomodava, e os humanos eram levados até as construções negras, que agora Ona sabia que se chamavam Tyah, que no idioma orc significava "casa humana". Desnecessário dizer que o humor orc não era o mais sofisticado.


A ordem sagrada do cristal magico





domingo, 10 de fevereiro de 2013

Sitala -Parte 3



Não demorou muito para chegarmos à costa, mas os cães já estavam impacientes, saltando de um lado para outro dentro do barco. Eu teria uma enorme simpatia por esses cães, se nosso começo não tivesse sido tão desastroso. Apesar de nunca mais terem me atacado, eu jamais perdi o medo completamente.

Nós desembarcamos em um local diferente daquele em que eu havia chegado. Javier se guiou pelo farol da cidade e aportamos em um pequeno ancoradouro rochoso. Os cães foram os primeiros a saírem do barco. Eu e Javier saltamos em seguida.

Enquanto Javier amarrava o barco no cais, me disse que aquele local era mais seguro para eles aportarem e que ele tinha um grande amigo que morava no farol. Não demorou muito para eu descobrir grau de amizade entre os dois.

- Espanhol desgraçado. Ladrão de chuteiras. – Gritou um homenzarrão ruivo, com uma espingarda nas mãos e sotaque carregado.

- Não atire, Sean. – Respondeu Javier se abaixando e se protegendo próximo a uma pedra.

O pedido de Javier não surtiu efeito e o ruivo disparou um tiro, que ricocheteou em um rochedo, indo se perder no mar.

- Esse é o seu amigo? Perguntei, ainda fraco pela viagem.

- Calma, ele está bravo porque eu peguei as chuteiras dele emprestadas. Ele gosta de Rugby!

Um tiroteio por causa de um par de chuteiras! Eu não estava acreditando que tinha atravessado o oceano para me livrar da selvageria de Nova York e tinha achado gente mais louca na Europa.

- Fica com esse barco e eu te arrumo chuteiras novas. Achei a casa de uns australianos em Cork. Prometo que semana que vem eu trago um par novo para você – gritou o espanhol.

O ruivo disparou mais um tiro e berrou:

- Espanhol mentiroso. Acabou com as minhas chuteiras. Maldito!

- Eu tenho Charaaaaas – gritou Javier, levantamos as mãos e mostrando o saco cheio de plantas que ele tinha buscado no navio. – E pode ficar com o barco. Trouxe para você, Sean. É seu!

Os cães começaram a uivar e Javier os repreendeu, mandando-os calarem as bocas. Os cães obedeceram ao dono e se deitaram no chão como se pedissem desculpas.

- Charas? – Perguntou o ruivo. – Por que não disse logo? – Continuou, abaixando a espingarda e abrindo um largo sorriso.

Javier levantou a cabeça vagarosamente, olhando para o farol. – Posso ir até aí? – Perguntou ele desconfiado. O homem, do alto do farol, fez um gesto com a mão, nos mandando entrar.

O ruivo era Sean Cotter, um velho marujo irlandês que vivia no farol. Sean morava ali com seu filho Will, mas havia três semanas que estava sozinho. Will Cotter havia seguido para Dublin com mais quatro aliados para comprar explosivos para uma guerra que, fatalmente, eles teriam que travar na cidade.

Aquele farol era quase uma fortaleza. Possuía um muro alto que o circundava desde o mar, até a avenida principal. Cara, esse tipo de paisagem só reforçava a minha teoria de feudalismo pós-moderno. Sean era o senhor feudal da zona costeira de Youghal e o farol era sua torre medieval.

Eu, Javier e os cães subimos por um caminho que circundava o muro, até chegarmos ao portão. Lá, estavam esperando Sean e seus cães. Eram oito setters irlandeses, ruivos como o dono, que fizeram festa para os visitantes.

- Trouxe charas, seu maluco? – Perguntou Sean. – Pena que Will já se foi. Ele poderia trocar alguns charas por muito explosivo – completou.

- Sim, é uma pena. Mas vamos fazer negócios em Cork. Os japas vão ter que ir embora daqui de uma vez – disse o espanhol.

Eles tomaram cerveja irlandesa e eu fiquei só no leite. Não que eu não gostasse de cerveja, mas na situação em que eu estava, achei melhor me alimentar antes de começar a beber.

Depois de um tempo na Irlanda, nós três voltamos a nos encontrar algumas vezes para tomar Guinness e devo confessar: depois de Guinness, a Budweiser nunca mais teve a mesma graça. Assim como o football, que tinha perdido o encanto depois que descobri o rugby.

Infelizmente eu só descobri o prazer de beber cerveja quando já era mais velho, depois que meus pais morreram. Enquanto eles eram vivos eu era ainda muito jovem e doutrinado segundo a lei de que o álcool é um veneno e contra os ensinamentos do Criador. Mas depois, lendo a Bíblia, entrei em parafuso: não há uma passagem onde Cristo não tome uma taça de vinho. Bem, o álcool é realmente um veneno, mas eu tomo minha cerveja como Jesus tomava seu vinho.

Muitas coisas mudaram na minha vida quando resolvi interpretar a Bíblia ao meu modo, sem levar tudo ao pé da letra, como faziam meus pais. Apesar de tudo, minha fé continuava intacta.

Depois que saímos do farol, eu e Javier caminhamos um pouco menos de uma milha pela a avenida costeira, até chegarmos a um prédio antigo que possuía uma garagem grande e cheia de carros.

- Esses carros são seus? – Perguntei.

- São de Sean. Essa parte da cidade é toda dele e do filho – me respondeu o espanhol, fazendo ligação direta em um jeep aberto. – Vamos pegar emprestado para chegarmos à minha casa. É do outro lado da cidade. A pé cansa!

Youghal devia ter uns seis ou sete mil habitantes antes da varíola. Quando eu cheguei lá eram 200 no máximo. Javier dirigia muito bem, mas corria feito um louco. Por várias vezes quase caímos nos rochedos, mas ele dizia que era preciso dirigir rápido para escapar dos atiradores nas janelas. Naquele dia eu não vi ninguém, mas depois iria saber que ele estava certo.

Porra, o espanhol era completamente louco. Muitas vezes eu não entendia nada do que ele falava. Não apenas por causa do péssimo inglês e pelos passeios lingüísticos, ora no castelhano, ora em um dialeto que eu nunca soube o que era. Às vezes eu não o entendia simplesmente porque as coisas que ele dizia não tinham nexo.

A arquitetura era o que mais me causava estranheza nos primeiros dias. Nada de arranha-céus. Só prédios no estilo antigo. Mas algumas coisas eram a mesma merda. Os carros nas ruas estavam abandonados e depredados, a maioria sem os motores, que eram usados para gerar energia nas casas. As pessoas não ficavam nas ruas também e o silêncio quase absoluto chegava a ser irritante.

A casa de Javier era em cima de um monte. Uma bela casa que ele tinha tomado para ele. Devia ser uma mansão em outros tempos, mas se parecia mais com um quartel general, cheio de bugigangas e equipamentos empilhados e armazenados.

Durante quatro dias eu me recuperei da viagem. Foram quatro dias de chuva ininterrupta. O tradicional clima irlandês. Depois desse tempo, quando a chuva diminuiu, Javier disse que estava na hora de eu pagar minha estadia. Ele tinha uma lista telefônica guardada dentro de um cofre. Era o maior tesouro dele. Ele a usava para localizar “artigos de necessidade”. A lista em papel era muito rara, já que a maioria dos catálogos telefônicos ficava on-line antes do colapso da rede.

Fomos até Cork de moto. Javier tinha uma Ducati vermelha de mil e duzentas cilindradas. A moto era a realização de um sonho de infância, que a pandemia lhe havia proporcionado. Na cabeça dele, esse era um ponto bom da varíola: os bens foram socializados. Um milionário morria e seus bens eram divididos pelos sobreviventes.

Com esse processo de “socialização”, Javier tinha conseguido realizar quase todos seus sonhos. Ele tinha uma Maserati Qattroporte automática, uma casa com piscina e a Ducati vermelha. O único sonho que estava incompleto era o de uma mulher bonita para dividir a cama:

- As irlandesas e as inglesas são horrorosas. De vez em quando uma sueca ou uma holandesa aparece em Cork. Mas eu já nem me lembro de quando eu vi uma mulher sem marcas na cara. Malditas pústulas – lamentava-se ele.

Eu não era tão exigente quanto ele nesse quesito. Mas também, nunca fui um ícone de beleza e a varíola foi cruel com meu rosto. Javier me lembrava o primeiro cara que eu matei. Não tinha marcas no rosto. Eu me perguntava se ele não havia desenvolvido a doença, ou se o sistema imunológico dele tinha sido mais eficiente. Nunca falamos sobre isso.



Cork foi meu batismo de fogo na Europa. Javier dirigia e eu ia atrás, com duas pistolas Glock 17 apontadas para frente e uma mochila cheia de outras armas nas costas. Ele tinha uma lista de endereços e eu daria cobertura. Fomos a todos, um a um. Ele tinha separado alguns nomes latinos e outros tantos que, sabe-se lá como, ele deduziu que eram de australianos ou neo-zelandeses.

Acho que o cara era uma espécie de gênio. Era difícil entender como a mente dele funcionava, mas no final, as coisas geralmente davam certo. Achamos o que ele queria em Cork: chuteiras.

Estávamos bem armados e foi necessário o uso do nosso poder de fogo para invadir alguns edifícios. Eu só estava perplexo com o grau de insanidade daquilo tudo. Estávamos matando gente para roubar chuteiras.

No último endereço, um prédio de três andares na Shandon, nos deparamos com uma mulher de cabelo castanho que nos recebeu com uma rajada de uma submetralhadora alemã. Ela atira como um homem!- comentamos com um tom de escárnio.

- Venham aqui seus filhos da p&*%. Comam isso! – Gritava ela enquanto atirava.

Javier ficou olhando para aquela mulher com certa admiração e hesitou um pouco antes de revidar. Ele se lembrou de um filme antigo. Domino, era o nome.

Ficamos atrás de uma pilastra esperando uma chance.

- Quer se render, chica? - Gritou ele.

A mulher respondeu cuspindo mais uma rajada de balas de 9mm.

Javier recarregou as duas pistolas Glock, olhou para mim e disse meu nome com um tom grave. Os sinos da igreja de Santa Ana tocaram naquele exato momento e eu me arrepiei.

O espanhol respirou fundo e recitou:

- Ezekiel, 25:17. O caminho do homem justo é rodeado por todos os lados pelas injustiças dos egoístas e pela tirania dos homens do mal. Abençoado é aquele que, em nome da caridade e da boa-vontade pastoreia os fracos pelo vale da escuridão, para quem ele é verdadeiramente seu irmão protetor, e aquele que encontra suas crianças perdidas. E Eu atacarei, com grande vingança e raiva furiosa àqueles que tentam envenenar e destruir meus irmãos. E você saberá: chamo-me o Senhor quando minha vingança cair sobre você.

Depois disso, ele prendeu a respiração e caminhou decidido pelo corredor que nos separava da mulher. Ele nem sequer se protegeu. Tinha as armas apontadas para frente e foi pisando nos cadáveres que estavam no caminho.



- Hola, muchacha. Vámonos ahora mismo para el infierno, beber una cerveza con el diablo. Te gusta cerveza, chica?

A mulher apareceu na frente de Javier e tentou atirar novamente, mas o espanhol foi mais rápido que ela e acertou sua perna esquerda e seu ombro direito, fazendo-a cair no chão.

- Olé! – Gritou ele, dando um chute na HKMP5 que estava na mão da mulher.

A arma voou longe. Ele olhou para ela e viu seu rosto marcado pelas pústulas. Olhou para mim e fez uma careta:

- Carajo, más fea que un Perro. Adios, muchacha.

Foi a última coisa que ela ouviu, antes de sua cabeça explodir em pedaços. Excelente. Mais um Bola de Neve para minhas memórias.



Fernando Russell 
@CancerJack

sábado, 29 de dezembro de 2012

sitala part #2



Meu primeiro contato com a Europa foi meio traumático. Para começar, o navio que deveria me levar para a “Terra da Rainha” teve alguns problemas. Para variar, eu estava alheio ao início dos acontecimentos, mas de repente, eu vi que o cargueiro que nos levava para a Inglaterra tinha virado uma praça de guerra.

De um lado estavam os marinheiros, quase todos indianos, e o capitão, que era um velho filipino. Do outro, estavam uns cowboys, vindos de Nevada, que estavam muito loucos e queriam assumir o controle do navio.

Lógico que aquilo só podia dar em m%$#@. No final, depois de dois ou três dias de tiroteios e emboscadas pelo navio, os cowboys conseguiram matar a maioria dos indianos e tomaram o cargueiro. Só que tem uma coisa, o negócio de cowboy é cavalo, laço, touro. Navio é para marinheiro, p*!!@! Esses caipiras idiotas devem ter achado que era só girar o timão, como nos desenhos do Popeye.

Eu tentei me manter o mais afastado de tudo e de todos. Passar despercebido. Era desse jeito que, desde a pandemia, eu estava me virando sozinho e estava indo muito bem, por sinal. Por isso, me entoquei em uma cabine e de lá só saí quando o navio encalhou numa ilhota rochosa.

Como se já não bastassem os problemas que todos nós tínhamos que enfrentar, ainda éramos obrigados a lidar com esse tipo de babacas. Eu costumava pensar: se essa doença foi um castigo de Deus, por que não levou esses imbecis para o inferno? Será que os que morreram de varíola foram os escolhidos para se salvarem da selvageria que se tornou o mundo?

Bem, o fato é que eu consegui pegar um dos barcos salva-vidas e saí remando para longe do navio, que não chegou a afundar, mas ficou com o casco encravado nas pedras. Eu olhei para trás e vi o cargueiro. Era uma visão bem sinistra. Parecia que a qualquer momento aquela p*!!@ de navio iria a pique.

Eu demorei a avistar a costa. Depois de uns quatro dias eu já estava desidratado e minha vista estava toda embaçada. Quando vi uma praia no horizonte, achei que era uma miragem ou coisa assim. Estava morto de sede e com o corpo fraco, mas as ondas me levaram para a areia. Eu desci, me ajoelhei e chorei.

Chorei como nunca tinha chorado antes na minha vida, porque era um choro de alívio e de esperança. Eu tinha chegado à Inglaterra, onde minha vida iria mudar. Eu voltaria a ter uma razão para continuar minha existência, longe daquele purgatório em que se transformou a minha pátria. Mas a minha alegria durou pouco. Pouquíssimo, eu diria.

Eu juro que não ouvi nada. Nem ao menos um latido. Quando dei por mim, eu já estava sendo atacado por várias mandíbulas ferozes. O pior é que eu não tinha forças para reagir. Fechei os olhos e desencanei. F*%@-se! Já não sentia mais as mordidas. Nem o bafo quente dos cães, nem a saliva nojenta que se misturava ao meu sangue… Eu estava cansado demais para sentir dor. Tudo o que eu pensava era: que pena! Demorei tanto tempo para chegar aqui e agora vou morrer na praia, como um filhote de tartaruga que não consegue chegar ao mar.

- Fiuuuuiii – eu ouvi um assobio – Pancho, Pepe, Cheech, vengan hasta aquí. Dejen ese pelado. Gritou alguém em castelhano. Na época eu não entendi nada, mas as palavras ficaram na minha cabeça.

As mordidas cessaram. A dor voltou, mas as bocarras insaciáveis e frenéticas pararam de me atacar. Quando abri os olhos, vi um cara meio cabeludo apontando duas pistolas para minha cara. Com um sotaque, que com certeza não era britânico, perguntou em inglês quem eu era.

Eu não consegui nem responder. Ele abaixou as armas para repreender os cães que latiam sem parar. “Ustedes comem cualquier cosa pola calle y después se quedan malos. Yo no voy limpiar vómito, y tan poco saliré buscando medicamentos.” – disse o cara de volta ao castelhano.

Eu pisquei os olhos e quando os abri novamente, ele estava com as armas apontadas novamente para minha cabeça. Estava ofegando como se tivesse corrido. Parecia um louco (e realmente era). Passou as costas da mão na testa para tirar os cabelos da frente dos olhos.

- Muchacho, usted tiene cinco segundos para decir quiem éres. – disse ele.

Naquela época eu não falava nada de castelhano, mas percebi que aquilo não era inglês. Tentei me explicar e ele voltou a falar a minha língua.

Eu juntei minhas forças para falar, mas apenas sussurrei. Ele se aproximou para ouvir melhor e eu tentei explicar a minha história. Contei que era de Nova York e que estava tentando levar uma nova vida na Inglaterra, mas que o navio havia naufragado.

Quando falei a palavra navio, ele arregalou o olho e me perguntou se o navio havia afundado. Eu respondi que não sabia, mas que achava que sim. Falei que havíamos batido em uma formação rochosa em alto-mar.

Ele continuou me interrogando e seus olhos brilharam quando eu contei sobre os marinheiros indianos. Marinheiros indianos? Ele repetiu minhas palavras, me argüindo. Eu fiz que sim com a cabeça e ele berrou:

– Charaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaas! Charaaaaaaaaaaaas!!!!

Os três cães que o acompanhavam começaram a uivar como se fizessem parte de um número ensaiado de circo. Auuuuuuuuuuuu!

- E haviam brasileiros na ‘nave’? – perguntou ele, falando um inglês quase incompreensível.

- Não. – eu respondi.

– Argentinos? – continuou ele.

- Não que eu me lembre. Só americanos, acho. E indianos, ou paquistaneses. Quem sabe ao certo?

Ele cerrou as sobrancelhas, baixou a cabeça e resmungou:

– Mierda! Nada de chuteiras, entonces.

Eu olhei para os cães, que pareciam entender todo o nosso diálogo e acompanhavam silenciosamente cada palavra.

- Quantos dias de viagem? Argüiu ele, voltando o olhar para mim.

Eu não sabia direito o tempo, mas chutei uma semana. Então ele me botou dentro do barco, mandou os cães subirem a bordo e empurrou o barco de volta para o mar. Eu não entendi nada, mas ele me deu água para beber e uma barra de cereais que já estava com a data de validade vencida há algum tempo. Eu preferi não comer. Só bebi bastante água.

- Mi nombre és Javier. – disse ele voltando ao espanhol. Depois repetiu a frase em inglês e eu também disse meu nome: Ezekiel, como o da Bíblia.
Ele repetiu o nome do santo livro: a Bíblia. – respirou fundo e começou a remar. – Me gusta más Charas. – sussurrou ele.

Conforme ia remando, Javier me perguntava sobre a América e sobre a viagem. Com esforço fui falando tudo o que ele questionava. Ao que fui contando sobre o local onde o navio havia batido, ele começou a dar risadas. Disse-me que eu não sabia navegar e que tinha perdido meu tempo remando em círculos.

De fato, no cair da noite nós avistamos as luzes do navio. Eu fiquei impressionado com a disposição daquele cara remando. Além da capacidade de se nortear sem um GPS ou uma bússola sequer. Mal sabia eu que toda motivação dele estava dentro do navio. E, pelo que ia buscar lá, Javier remaria uma semana sem parar.

Chegamos perto do casco do cargueiro e pudemos ver que o navio ainda não tinha ido para o fundo. Estava lá, encalhado nas pedras.

Ao invés de tentar subir a bordo, Javier deitou-se e dormiu, me deixando ainda mais confuso. Tanta pressa para chegar e, quando chegamos, ele parou e dormiu. Como meu corpo e minha mente não se agüentavam, eu adormeci também.

Acordei no outro dia, com um dos cães me lambendo. O sol ainda estava raiando. Percebi que Javier tinha tirado o casaco que usava e tinha me coberto. Estava frio, mas ele estava com uma camiseta branca com as mangas cortadas.

- Hey, chico! Usted tiene una arma?- perguntou ele.

Eu disse que tinha uma espingarda calibre doze escondida no navio, mas que na pressa de fugir, deixei-a para trás. A careta que ele fez não precisava de palavras, mas ele quis ser mais enfático:

– Nunca se separe de sua arma. Nunca tenha pressa. E o mais importante: alimente bem o seu cachorro. Eles mantêm os gatos afastados!

Eu baixei meus olhos e aceitei o conselho, embora soubesse que minha maior arma era minha fé. E que se estava vivo até agora, era por obra do Divino Espírito Santo.

- Espere aqui com os cães. – disse ele, subindo em uma escada de corda que levava ao convés.

Eu esperei no barco salva-vidas. Eu e os três cachorros que me atacaram na praia. Cheech era o mais inquieto. Um jack russell terrier de pêlo liso, que não parava de andar de um lado para o outro, dentro do barco. Os outros dois eram mais calmos. Pancho, um rottweiler imenso e Pepe, um dogo canário com bastante idade e uma puta cara de mau.

Olhando bem para eles eu imaginei que, na praia, não me atacaram para matar, pois isso seria muito fácil para eles, principalmente para Pancho e Pepe.

Lá em cima, Javier estava quase dentro do convés, quando disparou o primeiro tiro. Os cowboys ainda estavam a bordo e ele teve que abrir caminho à bala. Os cães ouviram os tiros e levantaram as orelhas, atentos aos movimentos.

Não demorou muito e o espanhol estava de volta. Ele desceu habilmente a escada de corda e ao retornar estava com uma mochila gigante nas costas. Quando chegou ao barco, ele abriu a mochila e me mostrou o que fora buscar. Três mudas de uma planta, um saco com umas bolinhas escuras e uma espingarda calibre doze, cujo cano ficava para fora da mochila.

- É a sua arma? – perguntou Javier.

Fiz que não com a cabeça. Eu tinha uma Winchester e ele tinha trazido uma Bettinsole. Mas, nada mal! Nada contra! Uma espingarda européia para começar uma nova vida na Inglaterra, pensei, pegando a arma na mão.

Javier também me deu uma pequena estatueta de uma deusa hindu. Era uma mulher em um vestido vermelho, sentada em um burrico. Ele me disse que aquela era Sitala, a deusa da varíola. Disse-me para abandonar minhas crenças e pensar em deuses novos. É claro que não o levei a sério, mas guardei o presente.

Javier voltou a remar.

- Só mais uma coisa, cara. Aqui não é a Inglaterra, não – ele avisou com aquele inglês horrível. - Aqui é a ilha da Irlanda, hermano. Eu moro em Youghal, a praia onde você se encontrou com meus cães. É perto de Cork. Você pode ficar comigo por algum tempo, até que esteja em condições de viajar. Depois disso, você me paga a estadia e pode ir embora para a Inglaterra. Mas já te aviso, el viaje és un carajo!

Eu fiquei com a minha tradicional cara de palerma e Javier seguiu remando e cantando em sua língua natal:

Me gustan los aviones, me gustas tu.

Me gusta viajar, me gustas tu.

Me gusta la mañana, me gustas tu.

Me gusta el viento, me gustas tu.

Me gusta soñar, me gustas tu.

Me gusta la mar, me gustas tu.





Texto de :

Fernando Russell

@‏CancerJack

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

as crônicas de Ona- O plano


Após muito tempo Matheus Forny nos narra a segunda parte da perogosa jornada que Ona é obrigado a enfrentar.




O sol aquecia o deserto de forma implacável, e o cheiro dos orcs em decomposição envenenava o ambiente rapidamente, mas Ona não percebia. Desde que sua cidade fora devastada, ele tinha apenas dois objetivos: resgatar Ankho e obter vingança. O primeiro objetivo estava completo, o bárbaro ele se estendia diante dele.

Ankho era de fato uma figura imponente. Era gigante, de certa forma tinha uma fisionomia parecida com a dos orcs, visto que não era a definição dos músculos que importava, mas sim o tamanho deles. Uma barba longa e branca crescia, contrastando com seu cabelo raso. Usava calça e sapatos de couro, duas fitas desse material faziam um X em torno de seu peito. Seu corpo era marcado por cicatrizes e tatuagens de cores diversas, todas em forma de espiral, cujo significado Ona desconhecia.

Ona estava ajoelhado, enquanto Ankho se apoiava em um joelho apenas, com uma fisionomia cansada. De fato, parecia que o herói havia visto dias melhores. Sua barba estava revolta, seus lábios estavam secos e quebradiços, e umas séries de novas feridas se espalhavam pela extensão de seu corpo. Enquanto o observava o garoto mal ouviu o que Loretta dizia.

Ankho o bárbaro.

- Vejo então que meu trabalho está feito. Posso confirmar que meu pagamento será contabilizado? - disse ela.

- Ahn? Ah, sim, claro... - Afinal, ele tinha que agradecer à mercenária. Se não fosse por ela, nunca teria conseguido. De fato, o pagamento havia consumido quase a totalidade da riqueza do garoto, visto que ninguém mais aceitaria o trabalho, mas agora Ankho estava de volta...

- Certo. - Loretta retirou uma flecha e a posicionou em seu arco. - Ankho, você está preso pelo Alto Conselho dos Mercenários.

- O quê? - disse Ona, se levantando. Loretta rapidamente apontou a flecha para ele.

- Não brinque garoto, Considere-se feliz porque vou lhe dar uma carona para a Guilda.

- M-m-mas... - Ele estava em choque. Isso não fazia sentido, aquilo não devia estar acontecendo. Ele estava tão perto, finalmente conseguiu encontrar Ankho, e agora isso? - Você não pode fazer isso!

- Claro que posso. - Disse Loretta calmamente. - Meu trabalho com você está feito. Estou livre. E Ankho é um fugitivo. O Alto Conselho recomendou a cada mercenário da Guilda que, ao encontrá-lo, deveriam levá-lo à sede. - Ela olhou de relance para o guerreiro, que continuava no chão, respirando lentamente. - Faz anos que estamos o procurando.

- Anos? Mas... isso não fazia sentido...

- Heh.

Os dois mudaram sua atenção para Ankho, que havia resmungado. Ele se levantou lentamente, até se colocar na frente de Loretta. A mercenária deu um passo para trás, tomando distância para o arco. Ankho era definitivamente gigantesco, deveria bater a casa de dois metros com facilidade.

- Diga-me, você já questionou a força dos mercenários? - perguntou ele com uma voz grossa e lenta.

- Bobagem. - respondeu Loretta. - Não há o que questionar. Os mercenários são o maior conjunto não militar de Gohr. Nossa fortaleza nunca foi ameaçada por nada.

- E você nunca perguntou o porquê ainda termos orcs atacando cidades? Quer dizer, como você disse, temos força o suficiente. Por que nunca fomos à base deles e expulsamos os desgraçados? Como eles ainda estão vivos se existe uma força tão gigantesca bem na borda do deserto?

De fato, essa era uma questão que nunca tinha passado pela cabeça de Ona. Realmente, isso não batia, os mercenários eram uma força quase incomparável, com vários membros experientes capazes de limpar acampamentos de orcs sozinhos, Loretta era um exemplo claro, se eles quisessem que os orcs fossem exterminados do mapa isso já teria acontecido.

A mercenária também parecia nunca ter pensado nisso, seu rosto demonstrou uma sensação desconcertada, ela afrouxou milimetricamente a flecha no arco e ficou em silêncio.

- Nunca pensou nisso, não é mesmo? Sim, eu sei como é. O Alto Conselho faz das tripas coração para que nenhum membro tente considerar essa questão, isso vem desde meu tempo como mercenário.

- Você já foi um mercenário? - perguntou Ona incrédulo. Ele pensava que conhecia toda a história de Ankho, amplamente difundida em sua cidade natal. Pelo que ele conhecia, Ankho tinha nascido em Gohr e aprendeu a lutar sozinho.

O guerreiro olhou para o garoto, parecendo notar a presença dele pela primeira vez. Ona estremeceu levemente por dentro, observando os ferozes olhos do bárbaro.

- Sim. Estive lá quando tinha dezoito anos, mas logo desisti, estava farto do Alto Conselho. Quem é você garoto?

Se Ona havia estremecido levemente antes, dessa vez fora um pouco mais forte. Percebeu que não havia se apresentado para Ankho. E como podia? Para o garoto parecia que o homem à sua frente era superior, como se fosse de outra espécie.

- M...M...Meu nome é... É Ona, senhor. - Ele olhou para baixo mexendo os pés nervosamente. – E...Eu sou d...De...

- Espere. - Loretta parecia ter se recuperado do torpor. - Você não disse o motivo do Alto Conselho, digo, sua teoria faz sentido, mas pra quê eles gastariam membros da própria guilda em missões de alto risco? – ela questionou mantendo o arco apontado para Ankho.

- Achei que estivesse claro, se há uma ameaça, e não há um governo central para proteger a população, os habitantes de Gohr precisaram de proteção, os mercenários não são difíceis de contratar, tudo que você precisa é de dinheiro, sem orcs não há necessidade para proteção, portanto não há o pagamento. Para o Alto Conselho, que se dane as missões de alto risco, há mercenários o suficiente para garantir lucro por décadas, tudo que eles precisam é garantir que a defesa não vire ataque. É claro, existe de vez em quando a necessidade de sacrificar um vilarejo para garantir o medo por um tempo determinado, aumentando o valor do pagamento.

Essa declaração abateu Ona com tanta força que ele quase se desequilibrou, Aikon pensou sua cidade fora claramente fora sacrificada. Se os mercenários quisessem protegê-la, ela não estaria em ruínas. Seu punho se fechou com tanta força que suas unhas cortaram as palmas de mãos, o sangue escorria levemente enquanto o mundo de Ona girava.

Loretta também parecia ter levado essa declaração como verdade ela mordeu o lábios e ficou em silêncio por alguns minutos. Ankho esperou pacientemente, voltando a ignorar o garoto ruivo que tremia ao seu lado. Lentamente a arqueira abaixou o arco a tensão não estava no fim.

- ABAIXEM-SE! - Gritou Ankho olhando para a carruagem, uma seta passou zunindo por cima do grupo, que pulou para o chão.

Ona olhou para cima, uma quinzena de orcs estavam no alto da depressão, só que esses não eram arruaceiros, eram uma patrulha, patrulhas costumavam rondar o deserto matando, roubando e estuprando qualquer coisa que passasse pelo caminho, não necessariamente nessa ordem, eram o pesadelo das crianças que eram alertadas pelos pais a nunca sair das cidades. E agora uma dessas patrulhas estava prestes a fazer novas vítimas.

- Você. - disse Ankho se levantando e olhando para Loretta. - Me dê cobertura. - E saiu correndo para a estrutura negra que o aprisionava.

Loretta se levantou e atirou num grupo da hostil patrulha que se aproximavam, duas flechas acertaram o crânio de seus alvos, só que esses não eram arruaceiros comuns. Assim que seus companheiros foram vitimados, eles puxaram escudos de couro e madeira das costas e se protegeram das flechas enquanto avançavam pela depressão. Enquanto isso dois orcs armados com bestas se protegiam atrás da carruagem.

A arqueira fez um som com a língua de descontentamento e puxou Ona, que ainda estava estendido no chão, para uma das barracas que antes protegia brevemente a vida dos orcs do acampamento. Ona esperava ter um destino diferente do deles.

- Ankho! - gritou Loretta para a estrutura negra. - Seja rápido com o que quer que esteja fazendo!

- Eu disse... - respondeu Ankho saindo da estrutura com um machado gigantesco de duas mãos, feito de ferro reluzente. -Para me dar cobertura! –Ele avançou contra seus inimigos brandindo sua arma.

Como já foi dito, é bem raro orcs se verem em uma situação onde são os atacados, portanto, não se pode julgar a surpresa do grupo quando Ankho avançou contra o primeiro da fila, derrubando-o com uma ombreada no escudo e cortando rapidamente o braço que segurava a arma da criatura. Ela urrou de dor, e ele aproveitou o estupor temporário dos inimigos para fazer um movimento de meia-lua e atacar o escudo do monstro mais próximo, a força fora tamanha que o escudo se partiu, derrubando lascas de madeira pela superfície do deserto. Ankho continuou seu movimento, fez um giro em torno do seu próprio eixo e tornando a atacar a criatura, cortando seu estômago.

Os remanescentes passaram a tentar cercar o bárbaro, enquanto lá em cima os orcs armados com bestas miraram em no humano ensandecido. Loretta percebeu o movimento deles e atirou duas flechas, atingindo-os entre seus olhos, antes que sequer pudessem apertar o gatilho.

Essa ação desconcentrou um dos orcs, e Ankho aproveitou a distração dele e cortou sua cabeça com apenas um movimento. O monstro mais próximo levantou o escudo para atacá-lo, e Loretta o recompensou com uma flecha, que passou por baixo do braço do bárbaro e acertou o orc em seu peito. O guerreiro o finalizou com um golpe onde a flecha havia o atingido.

Agora restavam quatro orcs, um perto de Ankho e o restante mais afastado. O mais próximo tentou atingir com seu escudo o braço do guerreiro que segurava a arma, mas o movimento foi desengonçado e o defensor se desviou, fazendo um novo movimento para cortar o flanco do adversário.

O grupo mais afastado se dividiu, dois deles corriam com seus escudos levantados para onde Loretta e Ona estavam, o outro se pondo entre eles e Ankho.

Loretta, a mercenária arqueira.
- Cuidado! - gritou Ona, e Loretta se virou para os atacantes, atirando inutilmente duas flechas que pararam nos escudos, recuou rapidamente e puxou Ona pelo colarinho. O orc que enfrentava Ankho assumiu uma posição defensiva se esquivando dos ataques exagerados do bárbaro.

Loretta terminou de puxar Ona para longe da barraca, derrubou seu arco e saltou para cima da habitação, pegando impulso para dar um novo salto, passando por cima dos orcs. Logo que ela encostou no chão, as costas dos orcs estavam expostas, ela aproveitou para se virar e lançar duas adagas contra eles matando-os instantaneamente. O inimigo remanescente largou seu escudo e começou a correr. Loretta foi calmamente até seu arco, e atirou nele com uma distância considerável, derrubando-o quando ele começava a subir a depressão.

Ona ficou apavorado com os dois humanos, que agora limpavam suas armas e recolhiam as flechas dos escudos. Eles não eram desse mundo, pensou.

Ankho e Loretta foram em silêncio para o topo da depressão, Ona os seguiu, e parou os olhos na carruagem orc. Era bem parecida com a dele, mas o pano branco e ajeitado foi substituído por peles grosseiras. Ankho vasculhou o veículo, derrubando alguns papéis. O garoto olhou para eles, e percebeu um mapa.

A linguagem orc não era ensinada em todas as escolas, mas o pai de Ona, como político, sempre considerou a possibilidade de fazer contato pacífico com essas criaturas, portanto ensinou a família a escrita, sendo que a linguagem estava impossibilitada pela falta de tradutores orcs, portanto ao observar de relance o mapa, ele identificou algumas coisas, uma prisão a céu aberto estava próxima deles, e mais adiante para o centro do deserto estava o acampamento militar principal. Um plano se formava a passos largos na cabeça do ruivo.

- Bem, vejo que você não deve voltar à Guilda – Ankho falou a Loretta. - Você não me parece o tipo de pessoa que voltaria a trabalhar para pessoas assim.

- Infelizmente, você tem razão. Ainda estou pensando o que fazer. Provavelmente tentarei sair do deserto.

- Entendo, Bem, acho que isso é um adeus.

- E-esperem. - Disse Ona. - Acho que tenho uma idéia melhor. - Ona se sentiu um pouco apavorado por estar falando assim com pessoas que acabaram de realizar feitos espantosos, mas precisava disso. O plano estava fresco em sua cabeça, e era a única coisa que sobrava em sua vida, não havia espaço para o nervosismo nessa hora tão crucial. - Vocês estão contra o Alto Conselho e contra os orcs, certo? Eu tenho um plano de atacarmos os dois. Se nos livrarmos dos monstros, as pessoas não terão razão de pagar os mercenários!

- E como você tem esperança de fazer isso? - perguntou Loretta.

Ona mostrou o mapa. - Há uma prisão aqui perto. Se liberarmos os presos, poderemos ter forças para atacar a base orc, sem um comando central, eles com certeza se desestabilizarão e lutarão entre si pelo poder!

- Parece um plano muito simples. - respondeu Loretta.

- Ninguém nunca tentou atacar os orcs, nunca saberemos o que acontecerá, seremos os primeiros a tentar, enão me importa, é a única coisa que posso fazer.

- Bem, vocês podem fazer o que quiser. - disse Ankho, subitamente. - Mas eu vou voltar para Aikon, acho que a cidade ficou muito tempo sem mim.

Ona abaixou a cabeça. - Aikon... Aikon foi destruída. - A lembrança ainda era forte para ele. Lágrimas voltaram a escorrer pelo seu rosto, enquanto Ankho olhava-o de forma sombria.

Alguns minutos depois, no silêncio interrompido pelas fungadas de Ona, Ankho voltou a falar. - Bem, seguiremos seu plano então, não tenho nenhum lugar para ir mesmo.

- Bem, acho que essa também é minha situação. - disse Loretta, encolhendo os ombros. - Mostre o caminho, capitão.

Ona se animou um pouco, Aikon estava morta, mas ele podia fazer os responsáveis pagarem. Ele não tinha mais nenhum motivo de vida, era cumprir o plano ou morrer tentando. Ainda que ele tivesse medo do fim de sua vida, que rondava seus dias como uma ave carniceira, havia, de forma profunda em sua alma, uma confiança em Loretta e Ankho. Depois do que os dois fizeram, quem se colocaria no caminho deles?

Mal sabia ele o que o esper






Autor:



Matheus Forny

@matheus_forny











        
 Edição e diagramação:

Plínio Rezende

@pliniof19














leia a primeira parte dessa jornada:  



sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Eternidade S.A -Part 2

Depois de muito tempo, na verdad foi preguiça mesmo, trago a vocês meus caros a segunda parte dessa maravilhosa jornada criada por Daniel Rossi.
Plínio Rezende
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Tinha limpado os últimos 20 dólares de sua conta bancária para pagar um táxi para o centro da cidade. Não queria arriscar amassar o melhor terno que tinha dentro de um ônibus abarrotado de gente.

Nem fazia ideia de como iria embora para casa, pois nem dinheiro para o ônibus havia lhe restado. Poderia pedir emprestado algum para Arthur, se tivesse a sorte de encontrá-lo na empresa.

O que importava é que agora estava sentado no elegante saguão do 13º andar de um proeminente edifício comercial, aguardando pela tão esperada entrevista que poderia lhe dar um emprego novo e uma nova perspectiva. Estava ansioso e preocupado em passar uma boa impressão. Levantou-se e perguntou a recepcionista onde era o banheiro. Ela era uma ruiva sensacional que não tirava os olhos dele desde que ele havia chegado. Indicou-lhe uma porta no final de um corredor. Até então não havia percebido como ela o engolia com o olhar. Não que ele não levasse jeito com as mulheres, muito pelo contrário. Era um negro de quase um metro e noventa de altura, porte atlético e olhos verdes que arrancavam suspiros. A cabeça raspada dava um ar de jovialidade aos seus trinta e três anos. Porém, com a vida que vinha levando, tinha deixado de lado até a azaração, pois não lhe sobrava muita coisa do salário para gastar em baladas. Dirigiu-se até o banheiro, onde para sua surpresa não havia espelhos. Percebeu pelas marcas na parede que os mesmos haviam sido arrancados há pouco tempo. Como já estava ali mesmo, passou uma água no rosto e se arrumou o melhor que pode no reflexo de um toalheiro de metal.

Voltou pelo corredor e perguntou despretensiosamente para a recepcionista o que havia acontecido com os espelhos. Ela pareceu se divertir muito com a pergunta, como se ele tivesse perguntado alguma coisa absurda. Respondeu que eles haviam sido levados para manutenção. A ruiva começou a lhe dar um frio na espinha, e preferiu calar-se e voltar a sentar-se na poltrona. Ficaria ali por mais alguns minutos saciando os olhares da ruiva, até que o telefone na mesa dela tocou.

- A senhorita Rogers vai atendê-lo agora Sr. Kirkman. – Fez uma menção com a cabeça para que ele a acompanhasse.

Seguiram por um corredor até uma porta que tinha o nome de Samantha na porta. A ruiva abriu a porta para ele e entrou no escritório mais elegante que já tinha visto na vida.
Havia estantes com livros enormes, que pareciam ter muitos anos de idade e serem caríssimos. Os móveis eram todos de aparência clássica, e a iluminação indireta da sala dava um ar todo especial ao ambiente. Achou-a até um pouco escura demais, porém muito aconchegante.
No fundo do escritório, atrás de uma enorme mesa estava Samantha Rogers, a mulher com que havia conversado ao telefone. Era uma morena extremamente atraente, assim como a recepcionista. Ela lhe estendeu um aperto de mão firme como ele não experimentava há muito tempo. Sentiu a pele sedosa e fria em sua mão. Estava realmente gelado ali, provavelmente por causa do ar condicionado.

Ela pediu que se sentasse e ficasse a vontade. Sentiu-se a vontade, mas uma coisa em particular o despertou certa desconfiança. Apesar de toda a postura de executiva em seu tailleur e a maquiagem carregada, vista de perto e com atenção, não aparentava ter mais do que dezesseis ou dezessete anos. Aquilo o intrigou, mas não estava ali para questionar a idade de sua contratante.

- O seu currículo é impressionante. – ela começou a conversa.

- Eu não me lembro de ter enviado um, na verdade… – absolutamente nunca havia enviado nada para a empresa. O único contato que havia tido havia sido o telefonema misterioso pouco depois de mexer com o “cartão de visitas mágico”.

- Pode ficar tranquilo Sr. Kirkman. Nós sabemos tudo sobre você e devo dizer, ficamos muito impressionados. – Ela percebera que ele havia ficado desconfortável. - Deixe-me explicar para o senhor sobre a natureza dos negócios de nossa firma. Nós atendemos um tipo muito restrito de cliente Sr. Kirkman. São pessoas que acumularam fortunas enormes durante as suas… Vidas. – Ela enfatizou estranhamente a palavra vida. - Porém, estes mesmos clientes necessitam, eventualmente, desaparecer. Nosso trabalho é fazer com que seus bens continuem lhes pertencendo, mesmo depois que eles sumam de vista e retornem. Faz parte do nosso trabalho, também, providenciar-lhes novas identidades. Existe também toda a questão logística, mas essa é bem menos interessante… – ela sorriu para ele.

Kirkman estava atônito. Com que tipo de gente estaria se envolvendo? Seriam mafiosos? Estava com medo.

- Com todo o respeito, Srta. Rogers, mas não me parece que a natureza dos negócios de sua firma seja lícita. – escolheu as palavras com cuidado. Tinha a impressão que a qualquer momento um russo ou italiano entraria na sala com uma arma para matá-lo. A executiva franziu o cenho, porém sem deixar o ar jovial de lado.

- Posso lhe garantir que não há nada de ilícito em nossos negócios. Bem, pelo menos não no sentido que o senhor está imaginando. A necessidade de nossos clientes por uma nova identidade nada tem a ver com crimes, de qualquer natureza. Digamos que certo aspecto referente à longevidade de nossos clientes poderia despertar… Como direi… Questionamentos na sociedade. – abriu uma gaveta da enorme mesa de madeira nobre e retirou o que parecia ser um álbum de fotos antigas. Ela o colocou sobre a mesa e o empurrou na direção dele.

- Talvez isto lhe ajude a entender melhor…

Albert pegou o álbum sobre a mesa e o abriu. A princípio, tratava-se apenas de uma xilogravura de uma família que parecia ter vivido na época vitoriana. Porém, quando começou a folhear as outras páginas, começou a perceber o que de fato acontecia. A mesma foto de família se repetia pelo que parecia ser décadas. Às vezes com um membro a menos, às vezes com um membro novo. Porém, praticamente não havia diferenças entre a família vitoriana com uma em uma foto dos anos setenta, por exemplo. A semelhança não era simplesmente de indivíduos da mesma família: eram as mesmas pessoas, vivas durante o que seriam centenas de anos.
- Isto é impossível… – balbuciou incrédulo.

- Realmente é Sr. Kirkman? – ela o observava com um olhar calmo.

Quando ansiava por tirar a sua vida da rotina, nunca havia imaginado uma coisa como aquela. Estava aterrorizado e ao mesmo tempo encantado com tudo aquilo.

- Não tenha medo Albert. – Ela o chamou pelo primeiro nome. Parecia ter lido seu pensamento. Ou será que estava deixando transparecer o quanto estava petrificado? Fechou o álbum de fotografias e o colocou lentamente sobre a mesa. Levantou-se e começou a caminhar em direção a porta. Samantha não fez nenhuma menção em impedi-lo, apenas observou. Ele chegou a colocar a mão na maçaneta, mas não conseguiu girá-la. De repente começou a lembrar-se da vida que vinha levando, da solidão e da mesmice, do dinheiro contado e da falta de perspectivas com o futuro. Fechou os olhos e inclinou a cabeça até que ela tocasse a porta. Virou-se e voltou a sentar-se na poltrona em frente à mesa da executiva.

- Se eu aceitar trabalhar na sua empresa, eu serei um de vocês, certo?

- Uma vez dentro, não haverá como voltar atrás.

- Eu… Aceito. – Samantha lhe sorriu. Levantou-se e caminhou lentamente até atrás da poltrona onde Kirkman estava sentado. Apoiou as mãos nos dois ombros de Kirkman, depois desceu a cabeça até perto de sua orelha e sussurrou na voz mais sensual que ele tinha ouvido até então.
- Bem vindo, Albert.

Samantha cravou os caninos fundo no pescoço de Albert. Ele, porém não sentiu nenhuma dor. Poucos segundos depois já estava inconsciente.
Estava contratado.






Plínio Rezende 
@blogdorossi

Sitala part #1

Sitala é um conto seriado apocalíptico de Fernando “Tucano” Russell, um nerdcaster e mestre cuca da maravilhosa cozinha de jack, com ilustrações de Brunner Franklin.

Esse seriado foi lançado á muito tempo lá no site do jovem nerd.





Eu não sei exatamente se essa é uma história sobre o que aconteceu com o mundo, ou se é a história sobre o cara mais insano que eu conheci na minha vida. Está mais para a segunda opção, mas não dá para falar de um, sem falar de outro, então, vou começar pelo o que eu vi e ouvi acontecer primeiro.

Eu era garoto e não entendia quase nada no começo. O primeiro fato que eu me lembro é que, quando eu tinha uns nove para dez anos, uma nova doença apareceu e logo criou pânico no mundo inteiro. Depois, fiquei sabendo que, na verdade, não era uma nova doença, e sim uma doença antiga, mas em uma nova versão.

Logo que a paranóia começou, eu fiquei assustado e fui pesquisar. Li um artigo na Wikipedia e isso ficou gravado na minha mente como tatuagem. O verbete dizia: “A varíola matou quase 500 milhões de pessoas só no século XX.” Eu imaginei que seria um período ruim pra cacete, mas não imaginei que ia dar numa merda tão grande.

A pandemia começou na Ásia Central. No início, o mundo todo começou a achar que alguns russos tinham vendido o vírus da varíola para algum extremista islâmico. Aliás, naquela época, era moda culpar Alá. Toda merda que acontecia era culpa dos caras de turbante.

Até hoje ninguém sabe o que realmente aconteceu. O fato é que a doença se alastrou tão rápido que foi impossível continuar com as investigações. As agências de inteligência tentaram em vão descobrir a origem do vírus. As pesquisas envolveram várias nações, a OMS e o CCD americano, mas em pouco tempo, ninguém se importava mais com quem poderia ter sido o culpado. As pessoas só queriam se salvar.

Pode ser ingenuidade minha, mas para mim, o mais provável é que o vírus tenha sido uma mutação natural do orthopoxvirus da varíola. Eu não sou enendido, mas eu sei que essas coisas acontecem.

O que eu entendi é que o grande problema desse novo vírus da varíola, é que além de mais agressivo, também podia ficar hospedado nas células de gatos domésticos. Os cientistas só se deram conta disso muito tarde.

Cara, aquilo foi horrível. Na minha casa, minha irmã foi a primeira. Nosso gato estava infectado e passou o maldito vírus para ela. No primeiro dia, ela parecia que estava com uma gripe forte. Nos dias seguintes a febre aumentou e ela começou a vomitar intermitentemente.

Minha mãe rezava para que fosse apenas uma intoxicação passageira, mas no fundo, todos nós sabiamos o que ela tinha. Em quatro dias as feridas começaram a aparecer. Primeiro nos lábios. Depois no resto do corpo. Pústulas é como chamam.

Em uma semana todos nós estavamos contaminados. Foi nessa época que meu pai, ao ver na TV que os cientitas haviam descoberto que os gatos eram hospedeiros da doença, pegou a espingarda e estourou a cabeça do Bola de Neve. Era miolo de gato por toda sala. Era um gato idiota, com um nome idiota. Mas minha irmã chorou.



Minha irmã morreu no nono dia após o aparecimento dos sintomas e nem pudemos enterrá-la. Meu velho, com muito esforço físico e emocional, levou-a para o nosso quintal e queimou o corpo dela com gasolina.

A última alegria dos meus pais foi saber que meu organismo estava reagindo à doença. Eu cheguei a ter pústulas e até hoje ainda guardo marcas no meu rosto, mas a doença retrocedeu e eu sobrevivi para ver meus pais definharem. Eu os queimei no quintal e depois de um tempo, me mandei.

As autoridades que haviam sobrado diziam que os infectados que sobrevivessem deveriam procurar os centros médicos para análise de anticorpos. Eles achavam que a chave para a cura poderia estar no sangue dos sobreviventes.

Eu não fui a porra de centro médico nenhum. Não ia virar cobaia na mão de cientista. Pode ser egoísmo meu, mas se eu me salvei foi porque Deus quis. Talvez isso tudo possa ser mesmo um castigo Divino.

Na minha rua sobraram umas dez pessoas. Alguns deveriam ter morrido. O primeiro cara que eu matei na minha vida foi um vizinho. Eu tinha treze anos e minha família estava morta no meu jardim, e o cara estava invadindo as casas para roubar os pertences dos mortos. Foi mais fácil do que eu pensei. Quando ele entrou no quarto da minha irmã, tomou um balaço no meio da cara. Por um momento, me lembrei do Bola de Neve.

O cara não tinha marcas de pústulas no rosto. Tudo bem, depois do tiro, nem rosto ele tinha mais. Mas fiquei imaginando se ele não tinha sido infectado, ou se os anticorpus dele tinham sido mais eficientes do que os meus.

Fiquei olhando para aquele corpo com a cabeça aberta, jogado em um quarto de criança. Meu ombro estava doendo muito por causa do coice da arma. Eu revistei o cara e só encontrei uma pistola 380. Olhei para aquela cena de novo, me sentei no chão e comecei a chorar sem parar.

Eu tinha apenas treze anos. Matar aquele merdinha foi fácil. Duro era pensar na vida sem meus pais, sem os amigos do ginásio, sem ninguém em quem confiar. As ruas estavam desertas. O mundo estava vazio.

Antes da pandemia, a população no planeta era estimada em mais ou menos 6 bilhões de pessoas, mas em cinco anos, só tinhamos sobrado nós. Os setecentos milhões de sobreviventes que, de alguma forma eram imunes à doença.

Cara, isso foi o caos. As lavouras ficaram abandonadas, pois quase cem porcento da população rural morreu. As usinas de energia foram para o inferno porque não havia mão-de-obra especializada o suficiente para operá-las. Pior nas usinas atômicas. Muitas delas entraram em colápso e contaminaram regiões inteiras.

Na Alemanha e nos Estados Unidos, a merda foi pior. Eu acho que nas usinas nucleares desses países só sobraram funcionários do tipo Homer Simpson. O resultado foi devastação radioativa numa área de milhares de milhas. Quem não morreu de varíola, morreu de radiação ou ficou com câncer e sem tratamento. Também não duraram muito.

O cheiro das ruas era de carne podre. Os primeiros a morrer foram incinerados, como minha irmã e meus pais. O grande problema é que depois de um tempo foi faltando gente para queimar tanto cadáver. As cidades iam ficando entupidas de corpos e cada vez mais perigosas.

Eu tenho certeza de que isso tem a ver com o apocalipse. Eu li um livro há muito tempo atrás sobre a batalha dos anjos no apocalipse. São todos uns malditos. O autor se dizia ateu, mas eu sei que aquilo era verdade. E eu vivi isso. Primeiro a peste, depois a fome. E posso dizer com toda convicção, a fome foi pior que a varíola. Não em números, é claro. A doença matou quase 5 bilhões de pessoas, enquanto a fome exterminou “apenas” 500 milhões. As cenas que vi no período de fome foram mais bizarras que qualquer outra.

Quando a maioria dos alimentos produzidos tinham estragado ou acabado e as fazendas não cultivavam mais alimentos, começamos a caçar. Mas não caçamos apenas animais. Quando acabaram os veados do Central Park, vi gente caçando os vizinhos para comê-los no jantar.


Foi por isso que eu fugi de Nova York. Eu não era nenhum Plissken, mas consegui escapar da barbárie e seguir para o velho mundo em um navio cargueiro que levava gente desiludida para a Europa. O capitão do navio estava lucrando muito com isso, mas durante a viagem ocorreu uma briga e mataram o capitão.
A viagem que era para durar menos de um mês, acabou demorando dois meses e meio e foi um verdadeiro inferno. Mas essa história eu conto mais para frente, porque o mais importante é o que eu encontrei no antigo continente.



No final das contas, o mundo se tornou uma idade média pós-moderna. Um tanto estranho esse conceito que eu inventei, mas tem uma certa lógica. Nós tinhamos tecnologia, mas não podiamos usá-la a vontade, pois faltava energia a toda hora e faltava manutenção. Nós tinhamos armas de fogo. Aliás, isso nós podiamos usar a vontade, pois munição tinha de monte. A população era mínima e o dinheiro não tinha valor. Estavamos em uma sociedade feudal no século XXI.

Bastante irônico. No século XX, 500 milhões morreram pela varíola. No XXI, só sobraram 500 milhões. Eu me recordo de ter visto vários filmes em que o futuro era dominado por grandes corporações, ou que governos fascistas dominavam o mundo com mão de ferro. Eu deveria ter visto 12 Macacos antes.










Fernando Russel 
@cancerjack









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